Sonho de favela [Proto]

Lá está ele. Nascido na favela. Jogador do Flamengo. O sol quente castiga as suas costas enquanto ele pega a bola, beija-a e coloca na marca do pênalti. Se levantando, ele ergue os olhos ao céu e pede uma benção. Se acertar o gol, o Flamengo será campeão do Campeonato Carioca. Se errar, a torcida irá odiá-lo. “Pare, pense e respire” ele diz a si mesmo, concentrando os olhos no goleiro adversário, avaliando suas chances de balançar a rede. Anda para trás, expira, olha e chuta. A bola e o goleiro vão para o mesmo lado só que a bola foi rasteira. O goleiro passa por cima e a rede balança com a bola. O estádio do Maracanã explode em gritos. Ele cai de joelhos, não acreditando no que fez, olhando para suas mãos. Papéis pretos e vermelhos caem ao seu redor enquanto o resto do time o abraça e o levanta. Ele não crê no que está acontecendo. É o melhor dia da sua vida: ele faz o gol da vitória, jogando pelo seu time do coração, ganhando o campeonato. Agora, a taça está em sua frente. Ele a recebe com um beijo e a levanta, comemorando. De novo, ele ergue os olhos ao céu, só que dessa vez, agradece. Lágrimas começam a cair de seu rosto. É o melhor dia de sua vida.

Ao meio da multidão que grita, vibra e pula, ele ouve uma voz familiar. É a sua mãe, gritando seu nome. Seus olhos procuram freneticamente pelo rosto de sua mãe, ao meio da massa de fotógrafos e flashes, as lágrimas atrapalham a sua busca. Mas ele a encontra. Ele dá um abraço, mas os gritos não param. Ele olha para o rosto dela e ela chora. O mundo à sua volta começa a girar e escurecer. Os flashes desaparecem. Os torcedores desaparecem. O estádio desaparece. Em seus lugares, estão os flashes, só que vermelhos e azuis. O asfalto incomoda suas costas, que não estão quentes pelo sol, mas molhadas, encharcadas. Ao meio das luzes da rua, o rosto de sua mãe aparece, chorando e gritando seu nome. O mundo ao seu redor começa a apagar e os sons vão se abafando. Ele fecha os olhos e  descansa. Sua mãe o abraça e grita aos céus.

Mais um sonho perdido.

Mais uma bala perdida.

Mais uma vida perdida.


-Proto

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